O termo "inflação" e o fenômeno que ele descreve transformaram-se em palavra corriqueira no léxico dos latino-americanos, sobretudo, durante a década de 1980 do século XX, período em que sua convivência com hiperinflações crônicas só teve fim com o processo de estabilização macroeconômica encetada pelos países do subcontinente na década seguinte, já sob a influência do receituário ortodoxo-neoclássico do Consenso de Washington.
Um dos papas do conceito contemporâneo de inflação (ou, mais precisamente, a abordagem do processo inflacionário como um fenômeno eminentemente monetário) completaria 100 anos este ano. Trata-se de Milton Friedman, Nobel de Economia em 1976, justamente, por sua teoria monetária da inflação. Nascido em junho de 1912, o pensador da área econômica foi presidente do Federal Reserve, principal entidade institucional do singular sistema de bancos federais e regionais que formam o sistema de bancos centrais dos Estados Unidos.
Friedman é criticado pelas posturas ortodoxas, caracterizadas pela defesa de choques de caráter recessivo para corrigir desequilíbrios macroeconômicos, considerado em países de terceiro mundo como o elaborador dos receituários que, via Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial e outras instituições econômicas multilaterais internacionais, teria sido responsável pelo aumento da miséria e vulnerabilidade externa das economias em desenvolvimento durante o ápice da voga do neoliberalismo, na última década do século XX.
O economista também é contraposto a seu alter ego, o economista neokeynesiano James Tobin, como a contraparte "satanizada" do espectro de discussão doutrinária na economia (ou, mais especificamente, na macroeconomia) ao longo do século XX. Suas idéias iam de encontro à defesa de Tobin da manutenção da presença do Estado na economia e, sobretudo, de uma maior taxação ao capital especulativo internacional.
Para Friedman, o processo que desencadeia a inflação é relativo ao excesso de oferta de moeda no mercado.
Esse excesso de moeda se deve a um fator-chave, que responde, para o pensador, pela maior parte dos processos inflacionários que marcaram a trajetória das economias do subcontinente ao longo da década de 1980 do século passado. Trata-se da tendência ao financiamento da dívida do governo e do setor privado por meio do emissionismo, complementada por uma política monetária expansionista. Crédito excessivo, aliado a taxas de juro excessivamente baixas e uma política salarial que torna rígido o preço do fator trabalho faz pressão sobre a capacidade das autoridades monetárias de prover liquidez ao sistema econômico. A saída, largamente adotada ao longo de todo o período de voga do paradigma desenvolvimentista na América Latina (do qual o modelo brasileiro é o caso clássico e mais longínquo) era emitir moeda. Os resultados mais imediatos eram a desvalorização cambial das moedas locais e inflação monetária.
A teoria monetária da inflação teve muita influência no Brasil no último quartel do século XX. As idéias de Milton Friedman, seus ensaios (caracterizados por um alto grau de sofisticação conceitual) e sua defesa de processos de estabilização que harmonizassem as variantes de longo prazo (horizonte temporal da microeconomia) com as de curto prazo (horizonte temporal da macroeconomia) conformaram o cerne da escola dos novos neoclássicos na história teórica do pensamento econômico. Historicamente, o início da hegemonia desse grupo liderado por Milton Friedman coincide com a crise do Welfare State (Estado de Bem-Estar) e do keynesianismo, na esteira das duas crises do petróleo e do advento da Terceira Revolução Industrial.
O neoliberalismo fazia sua entrada no mundo das receitas de condução das economias em todo o mundo. A dupla formada pelo presidente norte-americano Ronald Reagan e a primeira-ministra britânica Margareth Tatcher foi, sob a sigla reagonomics, a introdutora desse receituário em sua aplicação na práxis.
As perspectivas teóricas contestadoras da teoria monetária da inflação também cerraram fileiras contra o pensamento de Milton Friedman. Ainda que reconhecessem o caráter por vezes excessivamente simples e a proverbial dificuldade no tratamento de questões que escapavam a perspectiva curtoprazista, o keynesianismo continuava a defender o diagnóstico estruturalista para a origem da inflação, qual seja, a de que ocorre inflação devido ao excesso de rigidez da composição de fatores de produção ou de determinados setores na disputa pelo produto nacional.
A teoria keynesiana da inflação sempre foi atrativa para economias em desenvolvimento, que conhecem dificuldades evidentes de estruturação de fatores em cenários de concorrência e desempenho e a dificuldade com que os sistemas de preços dessas economias funcionam. Nunca é demasiado lembrar que, para economistas da mesma estirpe teórica de Friedman, o sistema de preços continua a ser a principal forma de alocar recursos de forma eficiente.
As últimas crises econômicas (a do subprime de 2007-08 e a da Zona do Euro, em plena vigência no momento em que estas linhas são escritas) colocaram uma pá de cal definitiva no neoliberalismo e nas idéias de Milton Friedman, que serviram de base àquele? Responder à questão é difícil Não há dúvida de que Grécia, Espanha, Portugal e Itália entraram em colapso fiscal por não terem adotado o tipo de disciplina largamente defendida por Friedman. Sob outra luz, se pelo lado do diagnóstico a perspectiva parece favorecer os argumentos ortodoxos, pelo lado da solução as medidas adotadas e a discussão a respeito de um receituário para a saída da crise parecem favorecer a heterodoxia de inspiração keynesiano-estruturalista.
Fica claro que o papel dos governos na edição de pacotes de superação da crise continua a ter relevância. Em relação ao nível de resistência demonstrado pelas maiores economias em desenvolvimento (nomeadamente o grupo do Brics), fica demonstrado que uma aposta mais contundente no mercado interno e na manutenção do nível de consumo como agregado fundamental para manutenção do emprego e da renda (um dos principais pilares teóricos da chamada "revolução keynesiana") é a aposta que deve ser feita em tempos de crise sistêmica do capitalismo.
Entretanto, isso não significa que a ortodoxia à la Friedman esteja sepultada no espectro da discussão doutrinária e sua aplicação na prática. O que parece se delinear desse processo de crise internacional (e seu risco de se tornar crônico) é o fato de a solução estruturalista ser apropriada quando as autoridades monetárias se defrontam com momentos de instabilidades. A ortodoxia parece ser a melhor pedida quando, em cenários de bonança econômica, pode-se elaborar em prazos mais longos.
As idéias do centenário dr. Friedman são apropriadas, portanto, para os períodos de bonança tanto do emprego, da renda e do dinheiro que circula nos países e através das fronteiras.
O século de um macroeconomista
Última atualização em Sáb, 21 de Janeiro de 2012 02:24






